Carla Silva: “Mergulhei na piscina para resgatar uma atleta que se estava a sentir mal”

Carla Silva, árbitra de natação sincronizada
AUTORJoaquim Sousa
É a mais categorizada árbitra de natação sincronizada em Portugal. Carla Silva, de 47 anos, sente-se “orgulhosa e satisfeita” por ver que o seu trabalho reconhecido. Alerta para a necessidade de captar mais pessoas para a arbitragem “através de uma boa divulgação de ações de formação que possam existir”, confessando não gostar muito do termo artística que a modalidade vai adotar a partir do Mundial de Budapeste.

É a única juíza portuguesa de natação sincronizada que é internacional FINA, já com esse estatuto há mais de 10 anos. Como se sente nessa “pele”?
Sinto-me muito orgulhosa e satisfeita por ver que o meu trabalho e dedicação à natação sincronizada, ao longo destes anos, foram reconhecidos a nível nacional e internacional.

Como surge a natação sincronizada na sua vida? Descreva detalhadamente de que forma teve o primeiro contacto com a modalidade e o que a fez ficar nos anos seguintes…
A natação sincronizada aparece em 1987, numa altura em que era praticante de natação pura nas Piscinas Municipais de Espinho. Surgiu o convite pela professora Rosa Castro para formar um núcleo dentro do Sporting Clube de Espinho. Em 1998 estruturava-se, pela primeira vez em Portugal, na FPN, um departamento de natação sincronizada com a Isabel Raimundo a assumir o cargo de DTN. A partir daí iniciei a minha carreira como atleta federada, entrando nas primeiras competições em 1998. O gosto e admiração pela modalidade fez-me ficar ligada até hoje.

O que a fez ingressar na arbitragem?
Ingressei na arbitragem após ter terminado o meu percurso como atleta. Fiz o curso para árbitro em 1993, que decorreu em Felgueiras.

De que forma avalia a sua carreira?
A minha carreira como árbitro foi evoluindo de acordo com as minhas aspirações, com o objetivo de dar o máximo contributo à modalidade através das minhas experiências e presenças em competições nacionais e internacionais.

Quais foram as principais competições em que esteve presente como árbitra?
Além de praticamente todas as competições nacionais desde 1993, ainda participei no III Torneio Internacional "Antonio D’avilla", Comen Cup 2002, 2003, 2006 e 2007 e no Campeonato do Mundo Júnior, em Moscovo, em 2004.

Alguma vez teve um caso entre mãos difícil de resolver?
Já tive algumas situações que tive de resolver na hora. Até me lembro de uma em que estava a pontuar e literalmente mergulhei na piscina para resgatar uma atleta que se estava a sentir mal. Acho que tenho conseguido resolver todas as situações fáceis ou não, tentando ao máximo seguir os regulamentos e também fazendo uso de toda a minha experiência.

Conte-nos com mais detalhe o que aconteceu nesse episódio peculiar. Foi um ato instintivo da sua parte, não pensou em mais nada?
Não consigo precisar a data, sei apenas que se tratava de um campeonato nacional em Portimão e eu encontrava-me a pontuar. Não sei como, mas neste campeonato tinham ocorrido várias situações pouco comuns, nomeadamente a nível da música que deixava de funcionar, algumas atletas tinham-se sentido mal, enfim... eu estava sentada a pontuar a ver um solo e de repente a atleta que estava na água parou e começou a afundar-se, toda a gente ficou na espetativa a ver e eu tive a sensação nítida que algo de muito errado se estava a passar com a atleta. E o meu instinto foi saltar para a água e socorrê-la, pois realmente estava a sentir-se mal, quase a desmaiar. A prova foi interrompida, a atleta recompôs-se passado pouco tempo e eu tive que mudar de roupa para poder continuar a arbitrar.

Como analisa, de forma geral, a modalidade em Portugal? Evoluiu? Está no bom caminho?
Sim, a natação sincronizada em Portugal está, neste momento, numa fase de ascensão. Na minha opinião, este será um ano importante, pois iremos ter uma competição internacional na Mealhada em Agosto, a Comen Cup, além de que a FPN fez uma aposta na sincronizada com um projeto bastante interessante e ambicioso.

As piscinas em Portugal têm boas condições para o desempenho dos árbitros?
Em geral sim.

A natação sincronizada vai passar a designar-se natação artística a partir do próximo Mundial de Budapeste. É a favor ou contra?
Pessoalmente não gosto muito do termo artística, mas...

Há o risco da eliminação da modalidade do programa olímpico. Isso seria trágico para a sincronizada?
A eliminação da sincronizada dos Jogos Olímpicos seria bastante trágico, pois trata-se de um dos expoentes máximos de competição para qualquer modalidade.

No Mundial de Kazan, em 2015, estiveram pela primeira vez em competição duetos mistos. Considera possível Portugal ter homens a praticar natação sincronizada?
Sim, porque não? Já há vários países em que os homens praticam sincronizada há muitos anos, aliás, a primeira codificação moderna da natação sincronizada apareceu na década de 30/40, da autoria do norte-americano Franck Havlicek, surgindo as primeiras competições com duetos e equipas mistas.

Do ponto de vista dos juízes, existem diferenças na avaliação das exibições dos homens? São mais condescendentes?
Não, não sei muito bem se existem algumas regras mais específicas para os duetos mistos, mas serão sempre avaliados segundo as Regras da FINA.

Gere bem a sua vida profissional com as competições de sincronizada ou isso implica não ter muita disponibilidade, por exemplo, a marcar presença em provas internacionais?
Eu tenho a sorte de trabalhar por conta própria, por isso quando sai o regulamento das competições nacionais e datas e já vou organizando a minha vida profissional atempadamente para poder estar presente.

Sente que há mais interessados em ingressar na carreira de árbitro?
Sim, mas também há necessidade de captar mais pessoas através de uma boa divulgação de ações de formação que possam existir, assim como contactar pessoas que já tenham estado ligadas à modalidade, e por qualquer motivo não continuaram.

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