Maria Alice Vieira: “Sinto-me ansiosa por saltar para a água”

Maria Alice Vieira, atleta master de natação pura
AUTORJoaquim Sousa
Do atelier de alta costura a recordista nacional de masters. Maria Alice Vieira nasceu em 24 de agosto de 1937 (80 anos), é a menos jovem nadadora portuguesa em competição – só aprendeu a nadar aos 51 anos. Combate a solidão com a prática desportiva e revela que “algumas amigas sentem inveja” pelos resultados que obtém. Gosta de “reciclar alguma roupa” e “o tempo não chega para tudo”, confessa. A atleta do Clube de Natação da Maia elege a natação como a sua grande “paixão”.

Aos 80 anos e na sua terceira época como nadadora master do Clube de Natação da Maia, é dona de oito recordes nacionais (três em piscina longa, cinco em curta). Alguma vez imaginou contar com este “palmarés” quando decidiu filiar-se em 2015?
Nunca… apenas queria entrar numas provasinhas, como me habituaram na minha terra. Mas, ultimamente, esqueceram-me… houve uma monitora que achou que eu poderia competir em algumas provas e trouxe-me a proposta para que me federasse… agradeço muito à Patrícia Lobo!

Que razões a levaram a começar a treinar natação e a competir?
Adoro a água e adorava natação, tinha uma vontade enorme de aprender a nadar… logo que as piscinas de S. Mamede abriram, inscrevi-me com 51 anos e passados uns meses entrei logo numa prova. Adoro nadar, sinto-me livre!

Quantas dias e horas treina por semana?
Treino três vezes por semana: dois treinos de 45 minutos em S. Mamede e um de uma hora na Maia.

Como é o seu relacionamento com os seus colegas de equipa, todos de gerações mais jovens?
Sinto-me em família, é muito bom, são meus amigos, acarinham-me muito.

Sente um nervoso miudinho nas competições? Ou isso é coisa para “putos”?
Sinto um certo nervosinho, mas é natural. Sinto-me ansiosa por saltar para a água, mas logo passa tudo.

Como descreve o ambiente das provas de masters?
É uma animação, um convívio saudável, apesar de agora sentir responsabilidade para com o clube para não sofrer desclassificações. Faço o melhor possível.

Quando ouve as palmas dos outros nadadores no momento em que chega ao fim da sua prova, que sentimento lhe vai na alma?
Sinto-me muito feliz e reconhecida pelo apoio que me dão. Mil vezes obrigada! Apetece-me abraça-los a todos, mas não é possível.

E quando dá conta que estabeleceu um novo recorde nacional, sente-se realizada?
Sinto-me pequenina, radiante, incrédula e realizada, mas muito feliz! É a compensação pelo meu esforço quando sinto que consegui!

Descreva-nos um pouco a história da sua vida, as suas raízes, o que estudou, onde trabalhou, o seu relacionamento com os filhos e netos, que desportos praticou, como ocupa o seu tempo além da natação…
Sou natural de S. Mamede de Infesta, onde cresci e fiz-me mulher. Estudei no Porto, na Escola Comercial, trabalhei num atelier de alta costura e quando casei passei a trabalhar em casa para poder criar os filhos. Tenho uma filha maiata e um filho mamedense e três netos, alguns deles, tal como os filhos, orgulhosos de mim. Hoje em dia trato da casa e do jardim, gosto de reciclar alguma roupa e o tempo não me chega para tudo! Pratiquei ginástica de manutenção, alguma musculação e defesa pessoal, mas a natação é a minha paixão.

A morte do seu marido aconteceu quando já tinha iniciado o seu percurso como nadadora master. Como viveu esse período da sua vida e de que forma a natação a ajudou a ultrapassar esse momento?
Quando o meu marido adoeceu parei com tudo para tratar dele, mas após o falecimento recompus-me e logo que pude voltei à natação que muito me ajuda na saúde e também pelo convívio a combater a solidão.

É a menos jovem nadadora portuguesa em competição. Como encara esse “título”?
Encaro com naturalidade, em geral esqueço a idade, só me lembro de vez em quando, mas esqueço novamente. Quanto ao “título”, fico feliz, mas não deslumbrada…

O que é que as suas amigas lhe dizem quando lhes transmite que é recordista nacional?
Algumas ficam felizes por serem minhas amigas, outros há que ficam invejosas, nem disfarçam, mas é para o lado que durmo melhor.

Ainda faltam muitas provas até ao final de época. Em quantas competições vai participar e se ambiciona continuar a bater máximos nacionais?
Sempre que me convidarem cá estou. Haja saúde! Quanto aos recordes, depois se verá…

Sugestão para melhorar a natação master em Portugal, cada vez com mais praticantes?
Incentivar a prática da natação, por exemplo com cartazes de divulgação.

Que conselho pode deixar aos mais jovens?
Jovens e não jovens, sigam o meu exemplo, só aprendi a nadar aos 51 anos. Façam um esforço, pela vossa saúde e não só. A natação faz bem desde da ponta do cabelo à unha do pé!

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