Para continuar

AUTORSérgio Esteves
Questiono-me permanentemente se a minha geração, muito melhor preparada que os que nos treinaram, será capaz de “virar a página da mediania”.

“Virar a página de mediania” significa promover um conjunto de resultados que nos aproxime em termos absolutos dos melhores.

Estarmos juntos dos melhores significa estarmos consistentemente (i.e. em várias especialidades) nas meias finais dos Campeonatos do Mundo e dos Jogos Olímpicos e pontual, mas regularmente nas finais (sublinhe-se em piscina de 50m).

Não estamos, aproximamo-nos progressiva e continuamente até 2002 - 2004 e desde então ainda não sabemos quando vamos estar ... repito “consistentemente nas meias finais e pontual, mas regularmente nas finais”.

Já o exemplifiquei antes, se o mundo bate 5 recordes do mundo (ou seja, faz mais do que 5 x 1000 pontos Fina … ou mais do que 5 x 0% do Recorde do Mundo) e coloca a fasquia mais alta, tudo o que ficar abaixo disto em Portugal é algo que nos afasta do “virar de página”.

Este é um desafio que tem uma janela de cerca de 15 anos… 3 a 4 ciclos olímpicos… a partir daqui, senão antes, estaremos ultrapassados e passaremos ao lado da história… deixando para outros a tarefa.

Considero que a âncora que nos prende está amarrada em duas correntes pesadas e entrelaçadas:

A Primeira feita de incapacidade de inovar mais do que a concorrência… experimentamos tarde… questionamo-nos pouco… copiamos tarde… fechamos o casulo… não inovamos!

A Segunda feita de incapacidade de sermos empreendedores da mudança… não mudamos por fatores que não controlamos… não mudamos porque o perfil dos atletas mudam… têm menos atenção, menos tempo, não querem treinar, os pais menos tempo para serem pais… as universidades boas ficam noutra cidade… os estágios que não fazemos fora (quando os podemos fazer dentro)… e por aí adiante.

Existem duas linhas de ação em curso na atual direção da Federação que estão metodologicamente corretas.

1ª Democratizar o nível de competência aquática do povo Português;

2ª Melhorar a qualidade da formação para que se produzam melhores talentos (melhores porque na atual conjuntura demográfica “o mais” será difícil).

Sobre a priorização destes vetores deixaria de bom grado cair o primeiro para me enfocar no segundo… todavia, com esta ou com outra Federação estes desígnios são para continuar.

Sobre os indicadores de sucesso tenho uma opinião clara… o número de recordes nacionais das camadas jovens (ou títulos) medem a dinâmica juvenil.

A verdadeira medida de sucesso das políticas de formação também se mede pela aproximação aos melhores… e aqui são os recordes do mundo de juniores que servem de bitola.

A consequência das políticas que colocamos no terreno tem que ser medida desta forma. Ou seja, avaliadas ao longo de ciclos capazes (ao longo de pelo menos 8 anos) e relativizadas com o resto do mundo.

Só depois de consolidarmos a aproximação na fase de formação é que podemos esperar colher frutos na última fase… os Absolutos.

Por último 3 notas:

a) Encontrar soluções de financiamento para as nossas equipas é um desígnio… um imperativo, provavelmente a tarefa mais nobre de todas… a mais difícil… full time job;

b) Mudar sets de treino por mudar, só porque se leu uma publicação ontem, em princípio não é solução… é desacreditar os ciclos de treino planeados e em curso;

c) Os formadores mais capazes são os técnicos que estão nas camadas mais competitivas, enquanto o dinheiro está nas escolas… coloquem-se os melhores treinadores próximos das escolas e da formação (nem que seja 3h por semana) e já agora aproveitem a mudança para discriminarem positivamente a remuneração (professores das escolas mais capazes e com melhores indicadores têm que ser premiados e com muito melhor remuneração).

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