Projeto estratégico

Diretor-Técnico regional de natação pura
AUTORSérgio Souto
Uma das condicionantes de afirmação competitiva da natação e da sua Federação é a insuficiente capacidade de planeamento estratégico. A Federação precisa de compreender as reais vantagens competitivas da natação numa perspetiva de futuro para aproveitar as oportunidades que, do nosso ponto de vista, assentam basicamente na sua notoriedade e credibilidade enquanto espaço de formação pessoal.

A Federação tem dirigido essencialmente as suas energias para a repetição daquilo que vem do passado: a organização e a participação em quadros competitivos. Todavia há outras realidades que podem acrescentar valor e recursos para o desenvolvimento.

Exige-se a formulação e a implementação de estratégias que maximizem o potencial do nadador e da natação junto da população e as consequentes vantagens daí decorrentes na multiplicação de recursos.

Quando analisamos sites de outras federações, como por exemplo a Confederação Brasileira dos Desportos Aquáticos, e verificamos que todos os nadadores de alta competição são estudados ao pormenor ao longo da sua carreira desportiva, dos quais destacamos um que apenas é campeão olímpico, questionamos se podemos encontrar o mesmo tipo de trabalho na nossa federação.


Profissionalizar a alta competição

A sociedade atual tem tantas solicitações em todas as áreas, que é difícil manter as pessoas na natação. Uma coisa é a natação de lazer, outra coisa é o treino, a prática desportiva efetiva. Até à categoria júnior, os nadadores estão motivados e empenhados, mas quando entram na faculdade esse empenho decresce. O investimento na carreira académica é certamente um dos principais motivos para esse decréscimo de empenho, dado que querem assegurar o mais rápido possível a sua independência financeira. Após estes anos ligados à natação, continuo a achar que temos talentos desportivos para conseguirmos projeção internacional na natação.

A questão central é o interesse e a disponibilidade na transição para a categoria sénior, que se tem resolvido internacionalmente com a profissionalização dos nadadores, tendo em conta as exigências dos quadros competitivos e dos processos de preparação.

A natureza dos quadros competitivos internacionais impõe cada vez mais processos de formação ultra exigentes. É preciso treinar muito e bem. Este é o caminho para o sucesso. Não há outro. Criar esperanças em bons resultados internacionais só é possível neste trajeto de dedicação, de esforço, de conhecimento. Só se pode caminhar a passos largos para a profissionalização, entendida como dedicação a tempo inteiro ao treino e à competição.

Estar nas competições internacionais e almejar a resultados significativos requer uma atenção redobrada ao seguinte binómio: condições e tempo. Portanto, é necessário gerir o processo em conjugação com os clubes, criando-se as equipas multidisciplinares profissionais para apoiar os nadadores. Mas nos parceiros é preciso ir longe. É necessário envolver também a família dos nadadores, a administração pública e os patrocinadores.

Como em qualquer processo, há pontos críticos que devem merecer a reflexão aturada. O primeiro diz respeito aos nadadores. São precisos nadadores que se queiram dedicar a este processo profissional de treino. Em simultâneo, são precisas contrapartidas em termos de apoio à sua dedicação, para tal têm de existir recursos suficientes. Sendo assim, levanta-se a questão crucial da justa medida entre a aposta na elite e na massa de praticantes. A Federação vai ter de ser capaz de o fazer.

Para uma real profissionalização da natação é necessário profissionalizar os nadadores e toda a estrutura direta de apoio ao nadador. Esta estrutura deve abranger especialmente o binómio: nadador – treinador.

A profissionalização de todos os agentes envolvidos (e não só de alguns) na gestão é um aspeto incontornável.

(Continua)

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