“Só podemos evoluir se formos confrontadas com outras seleções”
Ana Raquel Azevedo, nadadora de sincronizada do Foca – Clube de Natação de Felgueiras
AUTORJoaquim Sousa
Ana Raquel Azevedo, de 17 anos, é a principal referência da natação sincronizada do Foca – Clube de Natação de Felgueiras que ostenta os títulos nacionais de Inverno e Verão. Apaixonada pela modalidade, a jovem atleta prefere o esquema Combinado porque “é uma junção de todos os outros” e que permite “ser mais original” e “criar uma história”. A nadadora felgueirense tem o desejo de voltar a representar a Seleção Nacional.
Como se dá a tua entrada na natação sincronizada?
Quando tinha nove anos, ia à bancada da piscina e via as meninas da sincronizada a treinarem e achei que aquilo que elas faziam era muito engraçado e que a sincronizada era um desporto diferente de todos os outros e, por isso, pedi aos meus pais para entrar.
E como foram os teus primeiros anos? Apaixonaste-te logo pela modalidade?
Sim, desde o primeiro dia que entrei que gostei muito da modalidade e desde aí nem sequer imaginava em sair. Senti-me muito acarinhada por todas as colegas de equipa, principalmente pelas mais velhas, que considerava umas «mãezinhas».
O que preferes fazer, Solo, Dueto ou Equipa? E porquê?
Todos os esquemas são especiais de uma forma diferente. Na verdade, o que gosto mais é o esquema Combinado porque é uma junção de todos os outros e por isso permite-nos ser mais originais e criar uma história para o nosso esquema. Além disso, permite que algumas atletas estejam paradas enquanto outras fazem elementos do esquema, tornando-o mais interessante e menos monótono.
O que fazes para te concentrares antes de começares uma prova?
Na parte das figuras, normalmente fico calada e penso bem em tudo aquilo que tenho de fazer, relembrando todos os pormenores e partes importantes que podem valorizar as notas dadas pelos juízes. Nos esquemas, como normalmente a minha categoria faz os esquemas quase no fim, aproveito para «gritar» e «apoiar» nos esquemas das minhas colegas, o que me ajuda a acalmar, porque os nervos são muitos, e depois antes do esquema tento concentrar-me pensando no gozo e alegria que vou ter ao fazer o esquema.
E naqueles segundos antes da música começar a tocar?
Essa é uma sensação muito estranha. Para mim há um silêncio enorme, parece que o tempo para. Normalmente fixo-me num juiz e tento avaliar a expressão dele, mas isto no solo, porque no dueto ou equipas há sempre aquele instinto de falar para a(s) nossa(s) companheira(s) e dizer "Força, vamos lá". Depois de a música começar, toda esta sensação desaparece e só nos concentramos no esquema.
Libertas-te completamente quando inicias a tua exibição?
Exato, acabam-se qualquer tipo de nervos. Num momento, a música está a começar e quando dou conta já está a acabar. É um segundo para dar o nosso melhor, mostrar o nosso melhor sorriso e não falhar na parte técnica.
Não pensas em nada exterior quando estás a fazer a tua prova?
Normalmente não. É como se as únicas coisas que existissem fossem eu, as minhas colegas, a música e água. Normalmente, temos a nossa a equipa a gritar e a chamar por nós e eu quase nunca me apercebo de nada, estou completamente concentrada naquilo que estou a fazer.
Em que é que te baseias para escolheres as músicas nos esquemas em que participas?
Normalmente são «soundtracks» de filmes. Quando sai um filme novo, vou tentar logo procurar músicas e ver se algo me agrada. Ou então, tiramos ideias das músicas que as atletas internacionais usam.
Dá-me uns exemplos de músicas que escolhes...
Já fiz um esquema combinado com músicas do filme Chicago, dueto com músicas de Memórias de uma Gueisha ou Piratas das Caraíbas. Depende do esquema. Nos solos é que temos mais liberdade. Já fiz um solo com uma música da Christina Aguilera, por exemplo.
Nessa fase de escolhas, tens em conta a opinião da treinadora ou é uma decisão pessoal?
Normalmente escolho e depois mostro às treinadoras para saber a opinião delas.
Se acharem que não é a melhor opção, dão ideias e acabo por encontrar outra que goste.
Que importância tem a maquilhagem numa atleta? Pensas muito na imagem que vais apresentar?
Os fatos de banho, a maquilhagem, o poupo, tudo isso é importante na impressão que damos a um juiz. Normalmente, são as treinadoras que nos maquilham. Olham para o fato de banho, veem as cores, e depois maquilham-nos, tentando ser originais. É obvio que não é o tipo de maquilhagem adequada para usar no dia-a-dia, mas nesta modalidade quanto mais apelativa melhor.
Por falar em juízes, o que se sente naqueles segundos em que os juízes vão pontuar a tua exibição?
É uma ansiedade enorme, pois queremos melhorar as nossas pontuações ao longo dos anos.
Já sentiste que os juízes não foram justos contigo?
Já. Há sempre a rivalidade de clubes e portanto nem sempre é fácil ser imparcial e muitas vezes as pontuações são injustas.
Na última época, o Foca foi campeão nacional de Inverno e Verão. Trabalharam muito para obter esses resultados?
Sim. Ultimamente são mais clubes a competir e muitos clubes têm evoluído muito, por isso cada ano que passa é mais complicado e temos de trabalhar cada vez mais. O ano passado tivemos de nos esforçar muito porque não tínhamos equipa sénior e portanto tínhamos de ganhar praticamente todas as provas em que participámos.
Que espírito se vive no Foca? É o clube com mais títulos em Portugal...
Sempre existiu um enorme espírito de equipa no Foca e continua a existir. O facto de sermos, normalmente, o clube com mais títulos, deixa-nos muito felizes. É vermos o nosso esforço recompensado. Mas isso não faz com que pensemos que já está tudo ganho, pelo contrário, faz com que treinemos e nos esforcemos mais para mantermos o título. Nos treinos tentamos dar o nosso melhor, ajudar-nos umas às outras e, claro, temos as treinadoras para nos chamar à razão quando não nos esforçamos o suficiente.
E para este ano, o objetivo é repetir a «dobradinha»?
Sim, o objetivo é esse, mas como já disse, cada ano que passa é mais difícil, por isso resta-nos treinar e marcar a diferença.
Sonhas representar a Seleção Nacional?
Neste momento, pode dizer-se que não temos Seleção Nacional. Em 2007, já representei a Seleção Nacional na Taça Comen, na Suíça. Em 2008 impediram-me de concretizar um dos meus maiores sonhos até então, fazer solo e dueto na Taça Comen, e desde aí nunca mais se ouviu falar em Seleção. É óbvio que gostava muito de voltar a representar o meu país e, claro, ainda estou na esperança que isto evolua e que nos deixem evoluir, porque só podemos evoluir se formos confrontadas com outras seleções que têm um nível muito superior ao nosso. Por isso é com elas que temos de aprender.
Foste treinada pela Cristina Oliveira, agora com a Luísa Leite. Que significado têm no teu percurso como atleta?
Ambas têm muita importância porque que foi com elas que ganhei o gosto por esta modalidade e que aprendi tudo o que sei. No entanto, ainda há muito que melhorar, muito que aprender e para isso claro que é importante a ajuda da Luísa e da Sara (Quintela), que também é nossa treinadora.
Achas que a natação sincronizada se deveria abrir ao sexo masculino?
Essa é uma pergunta complicada. É óbvio que os homens têm direito a praticar esta modalidade e em alguns países praticam. Mas a verdade é que é um pouco estranho. A sincronizada é em tudo um desporto muito feminino, desde as maquilhagens, os fatos de banhos com brilhos e lantejoulas, as próprias coreografias. Além disto, um homem nunca podia competir com mulheres porque é óbvio que tem muito mais força e assim ficávamos em desvantagem. Por outro lado, devido a essa força, não sei se seriam capazes de fazer um esquema com fluidez, ou seja, um esquema limpo, sem atirarem muita água, a palavra própria é «chafurdice»… Talvez um dia se possam fazer esquemas de dueto mistos como no ballet ou na patinagem artística.