Vaia ao centra(lis)mo

Secretário-geral da Associação de Natação do Norte de Portugal
AUTORNuno Recarei
Decorreram nos passados dias 17 e 18 de março, no Centro Olímpico de Piscinas Municipais de Coimbra, os Campeonatos Nacionais de Clubes da 1ª Divisão. Terminada a competição, apurados os resultados e atribuídos os méritos, é inevitável que surjam diversas análises e opiniões, umas mais técnicas, outras mais tendenciosas. No meu caso optei por refletir no tema numa perspetiva mais ampla, com uma reflexão socioeconómica e desportiva, que sendo mais pragmática, não será menos legítima.

Nesse sentido e numa primeira avaliação dos resultados, o que mais se destaca é, sem dúvida, a conquista maioritária das classificações cimeiras (83%) por clubes provenientes do distrito de Lisboa, cabendo à equipa masculina do FCP a honrosa tarefa de quebrar a quase absoluta hegemonia lisboeta nos três primeiros lugares e em ambos os géneros.

Apreciando mais ao pormenor os resultados finais, podemos constatar que o desequilíbrio nas posições de pódio não espelha uma dicotomia exclusiva de entre as equipas das duas maiores associações territoriais (AT’s) do país, Norte e Lisboa. O fosso existente entre os clubes da capital e os clubes oriundos das restantes regiões do país é geral, materializando uma realidade que é distinta, entre a região da grande Lisboa e o restante território nacional. Exemplo disso é o facto de num total de 13 AT’s associadas da FPN apenas sete tiveram clubes seus em representação desportiva nesta competição e de todas as equipas em prova 50 por cento eram oriundas do distrito de Lisboa.

Perante este cenário, seria legítimo concluirmos que ao longo dos anos, naquela região do país, terá surgido uma inexplicável concentração de talentos, onde os atletas são mais dotados e dedicados, os treinadores mais habilitados e melhor preparados, e os dirigentes mais capazes e competentes. A tentação de corroborar afirmativamente com este raciocínio reduz qualquer abordagem séria a algo simplista e impossível de aceitar por quem olha para o fenómeno de forma mais cuidada, sem se limitar a tirar conclusões parciais ou de ânimo leve.

O facto de vivemos num país pequeno, conformado ao centralismo e desportivamente redutor, não justifica todo este desequilíbrio que se vai perpetuando ao longo dos anos. Não explica tudo, mas certamente que é a partir daqui que se deve iniciar uma análise séria, à diferença de resultados desportivos entre atletas que vivem na zona de Lisboa e os seus adversários que residem no resto do país.

Para o atual cenário muito contribuíram diversos fatores, políticos, sociais e geográficos; uns inevitáveis, outros estratégicos. Frutos dessas particularidades acabamos por ter uma persistente concentração de populações nas zonas litorais, uma desigualdade a nível de infraestruturas, de redes de transportes, nos rendimentos das famílias… fatores que influenciam de forma significativa e direta a vida das pessoas e consequentemente a prática desportiva.

No encerramento dos Campeonatos Nacionais de Clubes da 1ª Divisão em Coimbra, tivemos o privilégio de presenciar um momento com especial significado, quando na piscina foi entoado em uníssono o hino nacional. Quem assistiu àquele episódio, certamente que não ficou indiferente à tamanha manifestação de unidade patriótica, que legitimamente nos poderia levar a acreditar que um dia, que não na atualidade, no nosso país tudo poderia passar a ser menos assimétrico, e a natação um universo paralelo, ao panorama desportivo de Portugal, onde a solidariedade em prol de uma causa comum seria efetiva.

Mas não! A racionalidade que me assiste não me permite ser ingénuo a tal ponto. A mesma comunidade desportiva que patrioticamente entoou a melodia símbolo da nação, foi a mesma que vaiou o pódio de uma das equipas competidoras. O adversário em questão, que cumpriu escrupulosamente os regulamentos da prova como é exigível a todas as equipas participantes, foi vergonhosamente desrespeitado no momento da sua condecoração, vítima de um falso moralismo, alegadamente justificado pela desaprovação no uso de atletas não nacionais. E sobre o tema “Estrangeiros” e a forma como os regulamentos permitem a sua inscrição em provas nacionais, estou à vontade, uma vez que já manifestei, por diversas vezes a minha repulsa, e já tive a iniciativa de apresentar sugestões alternativas a quem de direito.

O 3.º lugar da equipa masculina do FCP é tão meritório como os resultados das restantes equipas em competição. Quem não concorda com os regulamentos, ou não compete, ou recorre aos meios disponíveis para os mudar previamente, jamais assobia os adversários que cumprem com os meios que tem à sua disposição. Estes julgamentos morais, mais típicos de outras modalidades que pouco ou nada são exemplo para nós, são perpetrados pelos mesmos que assobiam para o lado quando estão em causa desigualdades de meios e recursos, fruto do centralismo perpetuado ao longo de vários anos.

Compreendo que as particularidades regionais condicionem até certa medida o desenvolvimento harmonioso de Portugal, mas não aceito tal facto como uma fatalidade.

Apesar da realidade atual me contradizer, não deixo de acreditar que um dia teremos um país desportivamente mais democrático e menos heterogéneo. Para esse propósito muito têm contribuído as últimas Direções da FPN com o projeto “Portugal a Nadar” ou a intenção assumida de deslocalizar as competições nacionais para fora dos principais centros urbanos.

Os processos de melhoria não são inócuos e implicam adaptações e mudanças, e nesse sentido é fácil perceber e identificar de onde surgem as vozes discordantes e os resistentes à evolução. Não podemos esperar que seja fácil mudar hábitos nem costumes e muito menos pôr em causa interesses instituídos, mas, no futuro, todos teremos a ganhar com uma crescente abertura da modalidade ao resto do país. E acredito que infelizmente muitas das medidas agora tomadas apenas terão resultado a médio e longo prazo.

O desejável é que o futuro nos traga mais competitividade, melhores adversários, maior representatividade e distribuição territorial. E, em consequência dessa pretensão, nada melhor que o desporto para iniciar uma verdadeira integração das regiões e, porque não, uma estimulação da economia local. O desporto é também um veículo privilegiado na contribuição para a harmonização regional, anulação de preconceitos e derrube de barreiras.

Este ano, o Campeonato Nacional de Juvenis, Juniores e Absolutos de piscina longa realizou-se no Funchal e foi reconhecidamente um sucesso desportivo e social. O envolvimento do poder local, dos parceiros e voluntários, foi exemplar, e é desejável que de futuro possa vir a ser replicado noutras zonas periféricas do território. A satisfação manifestada pela maioria pelos atletas, técnicos e dirigentes é o melhor reconhecimento desta fórmula de sucesso e para o qual muito contribui exemplarmente a Associação de Natação da Madeira.

Haveria outras estratégias e caminhos a seguir, mas sou mais uma das vozes de apoio convicto à descentralização da natação, por acreditar que é esta a estratégia que melhor defende os interesses de todos e no futuro nos dará melhores resultados.

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